<serendipidadealgorítmica/>

Uma pesquisa sobre como as plataformas digitais transformam personalização em sinônimo de descoberta.

E sobre o que sobra da sensibilidade de quem ouve, essa capacidade de ser afetado antes de saber nomear, quando até o acaso passa a ser calculado.

Acidente gerenciável não é acidente.
<um trecho ao acaso>
<a pesquisa>

Subjetivações tecno-mediadas e a serendipidade: o algoritmo curador

leia na íntegra ↗
<por onde a pesquisa passa>
  1. Entre sensibilidade e mediação técnica

    A escuta sempre foi mediada. O rádio, as gravadoras e a TV já escolhiam o que chegava aos ouvidos. Com o streaming, a curadoria perde o rosto. O locutor podia ser contestado, o algoritmo recomenda sem declarar critérios. O documentário Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, lembra um Brasil que sente a música por outros caminhos, entre rifas, bares e CDs piratas. Berardi chama de infelicidade a consciência sem sensibilidade. É esse o risco de uma música que passa a regular o humor em vez de afetar.

  2. Subjetivação tecno-mediada: a serendipidade e o ouvir

    Cada play, pausa e pulo vira dado sobre o próprio comportamento. O perfil que o sistema monta não representa ninguém por inteiro. É uma abstração estatística feita de recorrências.

  3. Acidente, sagacidade e o problema da descoberta

    Serendipidade não é sorte. Merton e Barber mostram que o achado depende de quem consegue reconhecê-lo, e Martinez fala em olhos treinados para captar. Simondon ajuda a pensar a descoberta como invenção, uma reorganização das tensões de um problema. Ana Maria Gonçalves faz isso em Um defeito de cor, ao criar sentido onde o arquivo deixou silêncio.

  4. Serendipidade e o acaso

    O acaso controlado é anterior ao streaming. Em 1968, a exposição Cybernetic Serendipity, organizada por Jasia Reichardt em Londres, já perguntava o que computadores fariam na criação. Stafford Beer mostrava que eventos aleatórios formam padrões estáveis quando vistos em conjunto. Os sistemas de recomendação herdam esse problema e vivem no intervalo entre o familiar e o novo, como descrevem Bonnin e Jannach. A surpresa vem calibrada.

  5. Imaginários algorítmicos, método e a promessa da personalização

    O que se analisa é o que a plataforma diz sobre o seu algoritmo, e não o código. Com a Análise do Discurso de Orlandi e Pêcheux, a leitura acompanha 28 posts do Spotify for Artists e do Engineering Blog, de 2015 a 2025, com apoio de análise fatorial no IRaMuTeQ. Glenn McDonald, que trabalhou na empresa, lembra que não existe um algoritmo único. A pergunta passa a ser por que o discurso insiste no singular.

  6. O individual e os sujeitos que o algoritmo não conhece

    Para Simondon, todo indivíduo carrega um excesso pré-individual que nunca se esgota. O perfil de gosto captura fragmentos desse excesso e devolve estatística como se fosse identidade. Fica de fora o gosto que ainda não se sabe gosto.

Quando foi a última vez que uma música chegou até você sem que nenhum algoritmo a tivesse escolhido? A dissertação parte daí para ler o que o Spotify diz sobre si mesmo. O objeto não é o algoritmo como infraestrutura. É o discurso que a plataforma produz sobre ele, com suas metáforas, seus números redondos e seus silêncios.

Como o Spotify constrói, técnica e discursivamente, a equivalência entre personalização e descoberta musical, e quais condições isso estabelece para a escuta?

O resultado aponta para uma governamentalidade algorítmica. O sistema captura vestígios do comportamento antes que eles formem um perfil e os devolve ao ouvinte como se fossem identidade. A plataforma se apresenta como um amigo que conhece você. A mediação editorial migra para uma infraestrutura que se diz neutra.

orientação
Prof. Dr. Henrique Zoqui Martins Parra
bolsa
CAPES, Código de Financiamento 001
programa
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - PPGCS - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da UNIFESP, Guarulhos
<nas plataformas>

serendipidade algorítmica nas plataformas de streaming

A noção é, por definição, contraditória, e é exatamente por isso que ela funciona tão bem nessas plataformas. A serendipidade supõe ausência de cálculo. O algoritmo é cálculo aplicado a dados coletados para produzir resultados dentro de margens controladas.

Nomear isso serendipidade algorítmica é expor a contradição que a plataforma recusa nomear, e é nessa recusa que reside o interesse analítico da noção.

Bonnin e Jannach (2014) observam que os mecanismos de recomendação musical enfrentam um desafio permanente, oferecer conteúdos suficientemente próximos dos interesses dos usuários para serem aceitos e, ao mesmo tempo, incorporar algum grau de novidade.

Recomendações excessivamente previsíveis reduzem as possibilidades de descoberta, enquanto recomendações demasiadamente distantes aumentam as chances de rejeição (BONNIN; JANNACH, 2014). A recomendação musical passa a operar justamente nesse intervalo entre familiaridade e novidade.

familiaridade ←   → novidade

<o conceito>

Uma expressão que se contradiz de propósito

Walpole inventou a palavra serendipity em 1754, a partir dos três príncipes de Serendip, que achavam por acidente e sagacidade aquilo que não procuravam. Merton e Barber mostram que o acaso sozinho não basta. Alguém precisa estar pronto para reconhecer o que apareceu.

O algoritmo é o contrário disso. É cálculo sobre rastros, ajustado para que a novidade chegue na dose certa. Chamar de serendipidade algorítmica é dar nome à contradição que a plataforma prefere não nomear.

Èṣù

O orixá da encruzilhada. Na narrativa recolhida por Prandi, o caráter de Orunmilá era o destino e o de Exu, o acidente. Aqui o acidente é a condição do movimento.

Ọ̀ṣun

A orixá das águas doces. A água não segue rota traçada. Acha o caminho enquanto corre e abre passagem onde encontra resistência.

O sistema

Mapeia o terreno antes do movimento. Onde haveria encruzilhada, a direção já foi escolhida. Onde abriria uma fonte, chega mais do familiar.

<a escuta>

Entre sensibilidade e mediação técnica

Ouvir música nunca foi uma prática direta. Antes de qualquer algoritmo, o rádio já organizava o que chegava aos ouvidos. O streaming muda a arquitetura dessa mediação.

O locutor tinha voz e podia ser contestado. O algoritmo recomenda sem declarar seus critérios, como se apenas observasse. Para Franco Berardi, a infelicidade pode ser justamente isto, consciência sem sensibilidade.

Subjetivação tecno-mediada é o que se forma nesse cruzamento, entre o algoritmo e quem ouve, num ambiente desenhado para reduzir a incerteza.

<quem escolhia o que você ouvia>
  1. O Rádio

    O locutor selecionava por critério editorial, comercial ou gosto pessoal. Tinha voz e podia ser contestado.

  2. As Gravadoras

    Decidiam o que merecia prensagem e o que chegava às prateleiras.

  3. A MTV, Anos 90 e 2000

    Definia o que circulava no audiovisual e criava hierarquias de visibilidade.

  4. O CD Pirata

    Feiras e camelôs formavam outro circuito. Em Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, o brega passa de mão em mão.

  5. O Streaming

    A curadoria perde o rosto. O sistema recomenda como se apenas observasse, quando na verdade induz.

foto reprodução internet

leia a pesquisa completa na íntegra
<sobre o pesquisador>

Vinicius Miranda David Paulino

@viniciusmirandavid

Professor de Comunicação, Publicidade e Propaganda. Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), especialista em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo (USP) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FARR/CESREI, em Campina Grande, Paraíba.

Atua como pesquisador no PimentaLab/UNIFESP, investigando as relações entre comunicação, artes, inteligência artificial e cultura digital, com foco em plataformas, algoritmos e processos de subjetivação contemporâneos.